Ultimamente tenho ouvido uma voz dentro do meu cérebro, não estou demente, essa voz não é nada mais do que a minha. O espírito que nos anima pode assumir várias formas, algumas semelhantes a anjos, a seres desprezíveis, heróis, cobardes, sem sentimentos ou que preferem não sentir...cada um faz a sua escolha. Hoje acordei completa mas sem par...vi-me no espelho, ainda era cedo...o meu cabelo estava diferente, liso, com um comprimento que os caracóis escondem. Não sei se era eu que estava realmente bonita mesmo ao acordar ou se foi o espírito animador que escolhi que transparecia o que a voz me tem dito nos últimos dias. Adoro o sol da manhã no Verão, a estação do ano que mais gosto...o quente do sol é suave...mal saí senti-o logo na face, no meu corpo... aquele sol lembrou-me que possuo poderes ilimitados que ainda não explorei. Durante esta estação sinto prazer em dar longos passeios pela manhã, comprei o jornal e sentei-me para tomar o pequeno almoço no sítio do costume. As caras eram-me familiares, não sei quantas vezes disse bom dia, não importa...senti como se fosse realmente um bom dia. Ninguém se torna numa pessoa desesperada ou descrente enquanto houver uma réstia de simpatia, de amizade, de amor. Recordo-me da minha primeira impressão do mundo, o mundo era bom mas assustador...hoje sinto o mesmo embora numa ordem diferente...assustador e bom. Apercebi-me que este sentimento naquele momento foi quase sagrado, eu e a minha visão dupla do que foi e do que está para vir. Adorava treinar os meus olhos para uma visão normal...ou não...provavelmente não veria um palmo à frente do nariz...não apreciaria por exemplo este sol como hoje apreciei. Se pudesse capturar as pessoas que estavam à minha volta dentro de mim tal qual almas perdidas só para verem todo o meu interior naquele momento, seriam elas mais amáveis, mais compreensivas quando as libertasse? Que espírito escolheriam elas? Que reteria eu delas antes da libertação? Veria eu culpas? Consciências? Segredos? Que louca que sou! Roubar-me-iam elas o meu segredo sem culpa dentro da minha consciência, iam querer elas ter um segredo que não é mórbido ou maléfico como 80% dos humanos...iam desejar trocar o segredo delas pelo meu...poucas pessoas têm um segredo que as faz sorrir...adocicado..pessoal...num plano ilimitado onde me ensinou que errado é deixar de semear por causa dos pássaros...que posso sentir...acreditar que ainda existe (e repito-me)uma réstia de simpatia, amizade e amor nos outros...talvez seja melhor deixar as pessoas que me rodeiam exactamente onde estão, afinal o segredo é apenas meu e quem não desejaria ter um segredo como o meu?Amanhã será um grande dia...não necessariamente bom ou mau...não o vou poder disciplinar ou subjugar, tenho que me submeter a ele sem argumentar ou demonstrar a minha vontade onde o meu mundo é deixado dentro duma caixa por uns dias. Cheguei a casa, perguntaram-me porque não dormi, porque demorei tanto tempo, se tinha medo...apenas sorri sem resposta, aterrorizada mas sorri e nunca me esqueci de ti...
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