terça-feira, 21 de setembro de 2010

Continuo a considerar estranha a natureza do homem e por sua vez a minha natureza. Os seres humanos são tão cheios de dualismos, ou então se não o são conseguem pensar de formas diferentes para depois se tornarem novamente os dualistas do sim e não. Hoje um facto menor fez me reflectir sobre o que guardo das pessoas. Talvez aos olhos de outra pessoa aquilo não assumiria qualquer importãncia.O meu cérebro associa perfumes a pessoas...senti o cheiro do mar à noite na Foz do Douro e por uns instantes revivi momentos...sorri espontaneamente mas reconheço que uma lágrima caiu. Ali naquele local fui feliz durante todo um percurso de vida. É o local mais especial da minha existência e sempre que vou lá sinto-me diferente. Sempre que quero tomar alguma decisão é lá que me encontro. Viver e esquecer...alguém me disse um dia, o que foi realmente importante nunca esqueço, vivo apenas atordoada pelos novos dias que me surgem e guardo no meu íntimo algo que vai sendo enterrado cada vez mais fundo com o passar do tempo. É verdade que com o correr dos dias existem pormenores que me esforço por reter na memória mas o mais importante floresce do nada. Fiquei alguns momentos assim, a sentir o odor no ar de olhos fechados e naquele momento não havia qualquer razão válida para me fazer voltar à "superfície". Vi-me aos cinco anos a correr por aquele jardim de encontro ao meu pai, vi-me adolescente e a viver todas as novas experiências e vi-me hoje tão sedenta de tudo e sedenta de nada. Sedenta de tudo o que vivi e sedenta de nada por saber que não viverei mais nenhum daqueles momentos e apeteceu-me ficar ali indefinidamente. Quase que me poderia ter transformado em pedra de tão vazia que me senti de ideias, emoções ou vontade. De repente o meu mundo deixou de ser o mesmo, tudo mudou ...eu mudei...mas como pode tudo mudar num abrir e fechar de olhos? Aquele lugar até pode ser apenas um lugar sossegado e inofensivo mas o cheiro que a brisa trazia no ar em cada inalação fez-me sentir terrivelmente triste. O mundo em que habito nada foi mais do que a reflexão da imagem do meu interior. Senti-me perdida pela primeira vez e senti necessidade de me livrar de tudo...nascer de novo tão nua como no dia em que saí dum ventre reduzida apenas a um futuro. Senti-me perdida é verdade...mas nada como me perder e encontrar-me para depois olhar para mim e ver uma nova mulher todos os dias.

2 comentários:

Anónimo disse...

Disseste uma coisa com muito sentido "É verdade que com o correr dos dias existem pormenores que me esforço por reter na memória mas o mais importante floresce do nada." o que nos marca, o que vivemos de bom nunca esquecemos e nestas alturas em que surge do nada sentimos saudades e chega a doer eu sei.
És uma mulher nova todos os dias é verdade, mas em cada dia gosto do que vejo.

Beijinhos

Claudia

Segredo Cor de Rosa disse...

As palavras da minha M. Continuam mágicas.
Escreves e traduzes em palavras uma vida...tudo o que nela vive.
E é por tudo o que és, todos os dias, que eu gosto imenso de ti.

P.S. Mandei sms, está pendente.
Desliga lá essa treta e liga de novo. Beijos