Hoje chovia torrencialmente e ainda assim insisti comigo própria e saí pela manhãzinha.
Sentir a chuva, o cheiro da relva molhada na esperança que o sol de Outono surja no fim de tarde...e como eu adoro o sol de Outono. Não é demasiado quente mas transforma as cores das coisas, das folhas, em tons tão lindos. Sim talvez sejam os meus olhos que tenham as cores de Outono ...ora castanhos...ora verdes...consoante a beleza do que vejo. Como eu gostava não saber, que não me dissessem nada...que os meus ouvidos não ouvissem e os olhos não lessem o que os outros dizem. No entanto olham-me como se eu fosse o último recurso do que têm para dizer sobre ele. Não me mexo, não falo com a tentativa de não me denunciar e assim a minha alma se dedica quase forçada a ninharias, à medida que vão falando sobre o que ele lhes disse um dia, o elogio que lhes foi feito no dia tal à hora tal , um possível convite, um possível dito de interesse, continuo muda, tento mudar de assunto mas voltam com a conversa e sinto-me como se tivesse uma correia que se enrola à volta dos meus membros, do meu corpo ...atada de palavras, coração e mente. A perfeita cobarde que não diz “ cala-te, não digas o que ele te disse, não digas as provocações que te fez sobre o teu decote, não digas que ele não te olha nos olhos porque não consegue ” e assim me transformo na vítima excelente para esta espécie de tortura. Talvez eu seja demasiado inocente para este mundo, as pessoas são tão cheias de ideias engenhosas na eterna procura de alguma coisa escondida numa palavra ou noutra e não pensam senão nos meios que se servem para atingirem essa descoberta. Exageram, espremem o mais que podem e esquecem os seus princípios...eu nunca esqueço os meus. Nesta manhã a minha visão parou numa senhora muito idosa que atravessava a rua de braço dado com outra senhora de meia idade. A mais velha rondava os 80 anos, se me aproximasse da senhora e lhe perguntasse com todo o respeito que as suas rugas lhe dão , que significado teria a vida provavelmente mostraria um olhar vago de quem se tenta recordar...mas decerto se lembraria dos filhos enviados para a escola e depois para o mundo...do homem que amou e que provavelmente já se foi...quando a senhora se aproximou sem ter ideia dos pensamentos que estava a ter sobre ela notei um olhar terno...dei um sorriso sem perceber que o tinha feito, a senhora deu outro sorriso de volta. A nossa diferença de idades era igual a uma esperança que eu ainda tinha e uma vida que ela já viveu. Na minha passagem deixou cair um lenço...até o lenço bordado com as suas iniciais mostravam um tempo diferente do meu em que já não se usam. Tinha um perfume o lenço...Apanhei e devolvi-lho pondo-lhe na mão dela segurando-a com as minhas duas mãos...ela colocou a outra mão por cima da minha e ficamos assim segundos...sorrimos uma para a outra...notei a sua mão fria pela idade e a minha quente pela minha juventude. Foi um momento de bondade, de generosidade em que a senhora não imagina o quanto a sua mão fria aqueceu o meu coração...tenho a certeza que a minha mão quente lhe mostrou que ainda existe generosidade na juventude actual tão fria no seu todo. Na porta ao pegar no guarda chuva olhei para trás e levantei a mão em sinal de aceno de despedida...a senhora com a mão trémula na sua vitalidade diminuída pelos oitenta anos levou a mão á mão à boca em sinal de um beijo esvoaçado. Saí e respirei fundo, fechei os olhos por momentos a sentir o vento na minha face ao pensar na linda senhora que encontrei num acto genuíno de bondade mútua... esta senhora sim ..ia gostar de ouvir...sem correntes ...alguém que já subiu ao topo do mundo e teve a vida majestosamente a seus pés...
Sentir a chuva, o cheiro da relva molhada na esperança que o sol de Outono surja no fim de tarde...e como eu adoro o sol de Outono. Não é demasiado quente mas transforma as cores das coisas, das folhas, em tons tão lindos. Sim talvez sejam os meus olhos que tenham as cores de Outono ...ora castanhos...ora verdes...consoante a beleza do que vejo. Como eu gostava não saber, que não me dissessem nada...que os meus ouvidos não ouvissem e os olhos não lessem o que os outros dizem. No entanto olham-me como se eu fosse o último recurso do que têm para dizer sobre ele. Não me mexo, não falo com a tentativa de não me denunciar e assim a minha alma se dedica quase forçada a ninharias, à medida que vão falando sobre o que ele lhes disse um dia, o elogio que lhes foi feito no dia tal à hora tal , um possível convite, um possível dito de interesse, continuo muda, tento mudar de assunto mas voltam com a conversa e sinto-me como se tivesse uma correia que se enrola à volta dos meus membros, do meu corpo ...atada de palavras, coração e mente. A perfeita cobarde que não diz “ cala-te, não digas o que ele te disse, não digas as provocações que te fez sobre o teu decote, não digas que ele não te olha nos olhos porque não consegue ” e assim me transformo na vítima excelente para esta espécie de tortura. Talvez eu seja demasiado inocente para este mundo, as pessoas são tão cheias de ideias engenhosas na eterna procura de alguma coisa escondida numa palavra ou noutra e não pensam senão nos meios que se servem para atingirem essa descoberta. Exageram, espremem o mais que podem e esquecem os seus princípios...eu nunca esqueço os meus. Nesta manhã a minha visão parou numa senhora muito idosa que atravessava a rua de braço dado com outra senhora de meia idade. A mais velha rondava os 80 anos, se me aproximasse da senhora e lhe perguntasse com todo o respeito que as suas rugas lhe dão , que significado teria a vida provavelmente mostraria um olhar vago de quem se tenta recordar...mas decerto se lembraria dos filhos enviados para a escola e depois para o mundo...do homem que amou e que provavelmente já se foi...quando a senhora se aproximou sem ter ideia dos pensamentos que estava a ter sobre ela notei um olhar terno...dei um sorriso sem perceber que o tinha feito, a senhora deu outro sorriso de volta. A nossa diferença de idades era igual a uma esperança que eu ainda tinha e uma vida que ela já viveu. Na minha passagem deixou cair um lenço...até o lenço bordado com as suas iniciais mostravam um tempo diferente do meu em que já não se usam. Tinha um perfume o lenço...Apanhei e devolvi-lho pondo-lhe na mão dela segurando-a com as minhas duas mãos...ela colocou a outra mão por cima da minha e ficamos assim segundos...sorrimos uma para a outra...notei a sua mão fria pela idade e a minha quente pela minha juventude. Foi um momento de bondade, de generosidade em que a senhora não imagina o quanto a sua mão fria aqueceu o meu coração...tenho a certeza que a minha mão quente lhe mostrou que ainda existe generosidade na juventude actual tão fria no seu todo. Na porta ao pegar no guarda chuva olhei para trás e levantei a mão em sinal de aceno de despedida...a senhora com a mão trémula na sua vitalidade diminuída pelos oitenta anos levou a mão á mão à boca em sinal de um beijo esvoaçado. Saí e respirei fundo, fechei os olhos por momentos a sentir o vento na minha face ao pensar na linda senhora que encontrei num acto genuíno de bondade mútua... esta senhora sim ..ia gostar de ouvir...sem correntes ...alguém que já subiu ao topo do mundo e teve a vida majestosamente a seus pés...
3 comentários:
Tu tens uma capacidade de escrever tão bonita. a tua associação de palavras, os teus pensamentos.
mais um texto que nem tenho palavras. nao pares de escrever. escreve todos os dias por favor. tenho aprendido muito ao ler te.
abraço
ricardo a.
este texto é brilhante, tem partes fabulosas.
tive que o ler mais uma vez.
abraço
Ricardo
Brilhante, bonito e muito bem escrito. Não consigo parar de ler.
Enviar um comentário