sexta-feira, 4 de março de 2011

Lembro-me do meu primeiro beijo. Lembro-me da inocência desses dias, na escola onde aprendi a ler, do ambiente terno e calmo onde passei os quatro primeiros anos da minha aprendizagem escolar.Chamava-se Aquiles, era um menino louro, e passávamos muitas horas a conversar, brincávamos ao amanhã e aos adultos, quando tudo era colorido. No recreio, dávamos as mãos, e diziamos que éramos namorados, que um dia ainda iriamos casar. Que tontice embrulhada na magia de ser criança.O primeiro beijo foi envolvido em muita vergonha, num daqueles jogos do “bate-pé” a que jogávamos 4ª classe, presenciado pelos outros meninos, selando o que julgávamos inocentemente ser um compromisso para sempre. Só não sabíamos que nada dura para sempre.Frequentava uma escola privada, a classe era composta por dez alunos, e leccionados por uma professora maravilhosa, que se chamava Carmina, mas a quem carinhosamente chamávamos Cami. Nessa altura não havia muitos professores assim, ela era para nós uma segunda mãe, tratava-nos com ternura e compreensão. Nunca soube a dor de uma réguada ou de um castigo.A escola tinha um ginásio grande, e um palco enorme e lá costumávamos brincar aos castelos encantados. Por baixo do palco, tudo era escuro e fingiamos ser fantasmas, desciamos as escadas sempre com um medo inconfessável de que surgisse algum monstro ou papão. Mas mesmo assim iamos. Sentia-me protegida pela mão do Aquiles que combateria todos os fantasmas do escuro por mim. Mais uma tontice embrulhada na magia de ser criança.O Aquiles certo dia, não me lembro em que contexto da aula, dedicou-me uma canção e com o seu geitinho infantil, corado até às orelhas, fez-me sentir uma princesa. Eu, baixei a cabeça, envergonhada e surpreendida.Separámo-nos na quarta classe, entre beijos, abraços e lágrimas.Mas nunca o esqueci. Nem a ele, nem à inocência desse primeiro beijo. Nem aos anos felizes que vivi na minha infância, naquela escola, quando o amanhã estava tão longe que nem pensava nele.

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